O que define a família?

Antropologia ajuda a explicar o caráter social, não natural e a pluralidade da família

fruto de profundas transformações históricas.

A família é uma estrutura básica social

Das relações patrimoniais, econômicas e alianças por meio dos matrimônios, a família passa a ganhar contornos afetivos e cada vez mais diversos.

A estrutura que o mundo ocidental conhece hoje tem origem na Roma Antiga (século III a.C) para designar um conjunto de pessoas e coisas que estavam submetidas a um chefe: pater familias ou pai de família.

A família patriarcal - que reunia todos os seus membros em função do culto religioso, para fins políticos e econômicos - contemplava esposa, filhos e escravos.

“Eram essas crenças que tornavam desnecessário um poder social como autoridade; não era necessário um governo para fixar o direito privado, a família antiga era mais uma associação religiosa que uma associação natural”.

-  Fustel de Coulanges, historiador   historiador

A própria etimologia da palavra mostra que família está ligada à autoridade.

Do latim, familia significa o conjunto das propriedades de alguém, incluindo escravos e parentes; a família vem de famulus, que significa escravo doméstico

Na Idade Média as pessoas começam a se unir por meio do matrimônio como  forma de estabelecer alianças e conquistar aliados, o que formou novas famílias.

“A ideologia patriarcal somente reconhecia a família matrimonialista, hierarquizada, patrimonialista e heterossexual. [...] A ideologia patriarcal converteu-se na ideologia do Estado, levando-o a invadir a liberdade individual, para impor condições que constrangem as relações de afeto”.

-  Maria Berenice Dias, jurista.   historiador

Tendo como pilar o patrimonialismo e o individualismo, em 1916 foi concebido no Brasil o Código Civil, no qual a família era caracterizada pela figura do pai detentor do poder patriarcal - semelhante ao do pater famílias no direito romano.

Como consequência, as relações familiares eram baseadas nos mesmos princípios, em que pai, mãe e filhos tinham papéis específicos.

Lançando um olhar de "desuniversalização" desta família que se conhece hoje, a antropologia traz um estudo importante sobre família e parentesco.

Família e parentesco são coisas diferentes

Se no Brasil tem-se uma  descendência bilateral, onde se descende do pai e da mãe, há sociedades matrilineares, onde o pai não é parente.

Um estudo clássico na antropologia foi realizado pelo antropólogo Bronisław Malinowski nas ilhas trobriandesas, na Oceania, onde a descendência é matrilinear, o pai é tido apenas como marido da mãe.

Como nas ilhas trobriandesas o pai social não é identificado com o pai biológico, quem exerce a função que se conhece no Brasil como pai é o tio materno.

Outra pesquisa que modifica a concepção de família como uma unidade biológica  - pai, mãe e filhos -  é a do antropólogo  Claude  Lévi-Strauss.

Para ele, as relações de parentesco são definidas independentemente das ligações biológicas, contrariando a concepção de parente tipicamente ligada à noção de família nuclear.

Dessa forma, a antropologia coloca as relações de parentesco e família como estruturas universais, já que estão presentes em todas as sociedades.

Entretanto, as combinações dessas relações, seus significados, o que é permitido e o que é proibido é totalmente variável.

Essa análise antropológica permite olhar a enorme variação de modelos de família e a "desuniversalização" do que se tem como a família hoje.

Uma perspectiva que ajuda a perceber que a família esteve e está em constante transformação.

Raphaella Caçapava

Reportagem

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Gabriel França

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