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Esquecidos pelo governo, Yanomamis expelem vermes até pela boca

Esquecidos pelo governo, Yanomamis expelem vermes até pela boca
(Foto: Katie Maehler - Apib Comunicação)

Através de um post nas redes sociais, a Hutukara Associação Yanomami denunciou a falta de medicamentos importantes para tratar verminoses nos polos base da Terra Indígena Yanomami, como o Albendazol. As imagens e vídeos mostram crianças Yanomamis com casos extremos da doença, expelindo vermes até pela boca. A desassistência dos serviços de saúde na reserva indígena persiste desde junho, quando o Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana comunicou a morte de duas crianças de três anos por verminoses que, devido à falta de medicamentos, evoluíram para casos graves e óbitos.

Além da publicação nas redes sociais, a denúncia da Hutukara foi formalizada em carta. No documento, o povo Yanomami denuncia que, além da falta de Albendazol por meses, a ausência de água potável na região dominada pelo garimpo agrava ainda mais o estado de saúde das crianças com verminose, dificultando o tratamento. Segundo o documento, apenas 10% das comunidades atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) têm acesso à água potável por poços artesianos e outros sistemas de acesso à água. 

O Dsei é a unidade gestora descentralizada do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), que promove a reordenação e adaptação das práticas de atendimento médico e sanitário aos povos indígenas em 34 DSEI, divididos estrategicamente com base na ocupação geográfica das comunidades indígenas. Não obedece os limites dos estados. Sua estrutura de atendimento conta com unidades básicas de saúde indígenas, polos base e as Casas de Saúde Indígena (CASAI).

Com o objetivo de reivindicar os medicamentos necessários ao governo federal, o documento foi encaminhado em busca de apoio do Coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Yekwana (Dsei-YY), Ramsés Almeida, e do presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanomami. Segundo trecho do documento, “a obstrução intestinal por bolo de áscaris [lombriga] faz com que nossas crianças cheguem ao ponto de expelir vermes pela boca. É inadmissível e mostra que há muito tempo não está sendo feito o tratamento com regularidade”.

Além da alta de casos e mortes por verminose, a Hutukara também alerta para a proliferação dos óbitos por malária na Terra Indígena Yanomami, afirmando que o controle do vírus acontece poucas vezes no local pela ausência de bombas de veneno e de óleo contra o mosquito. “No Mucajaí, aos pacientes diagnosticados com malária, foi respondido que não havia remédios, pois o DSEI-YY não os tinha enviados”, comunicaram as lideranças indígenas no documento. Em 2021, a terra dos Yanomamis registrou quase 50% dos casos de malária no Brasil, além de 3 mil crianças com déficit nutricional, segundo o geógrafo e analista do Instituto Socioambiental (ISA) Estevão Senra. 

Em várias regiões, também foram identificadas mortes de pessoas com sintomas de Covid-19, as quais não foram contabilizadas devido à falta de testes RT-PCR. Por isso, os Yanomami também requisitam a continuidade na campanha de vacinação contra o vírus, priorizando a imunização das crianças da comunidade. 

Garimpo é um dos fatores para o colapso da saúde indígena

Segundo as sete lideranças indígenas que assinam a carta de denúncia da Hutukara, as condições de saúde das comunidades se agravam proporcionalmente ao avanço do garimpo ilegal, que gera impactos diretos na alimentação, segurança e saúde dos indígenas. Durante audiência da comissão externa da Câmara dos Deputados, em 14 de julho, entidades indigenistas e socioambientais denunciaram, mais uma vez, a “tragédia humanitária” à qual os indígenas da Terra Indígena Yanomami são vítimas.

Na ocasião, o vide-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Dário Kopenawa, citou o caso da comunidade Homoxi para explicar o impacto do garimpo ilegal nas condições de vida dos indígenas: “A comunidade e o garimpo ficam muito próximos e, por isso, as nossas crianças estão tomando água contaminada por mercúrio, 615 yanomamis foram ameaçados de morte, os garimpeiros tomaram conta do posto de saúde Yanomami. Então, a Terra Yanomami e [as margens do rio] Uraricoera estão virando quase cidades, com cantinas e prostituição entre os garimpeiros ilegais”.

Até abril de 2022, quatro mil hectares da Terra Indígena Yanomami tinham sido impactados pelo garimpo ilegal, com mais de 40 pistas clandestinas a serviço de garimpeiros e narcotraficantes. 

Além disso, a má gestão do distrito sanitário do SUS também aprofunda o colapso na comunidade. Apesar do anúncio da destinação de R$ 200 milhões de recursos públicos na saúde indígena, as lideranças Yanomami reclamam que o dinheiro não tem sido aplicado devidamente, devido a falta de medicamentos e materiais básicos. 

Na carta, a associação Hutukara também denuncia indicações políticas para o comando dos distritos sanitários, situação sobre a qual a deputada Joenia Wapichana (Rede-RR) já cobrou um posicionamento do Tribunal de Contas da União (TCU). O objetivo da deputada é enviar as informações obtidas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e solicitar que determinem providências ao Poder Executivo, no âmbito de uma ação judicial (ADPF 709) já em curso.

Em nota, o Ministério da Saúde negou o desabastecimento de Albendazol ou outros medicamentos, além do teste de Covid-19. No comunicado oficial, o governo federal alegou que o estoque de medicamentos contra verminoses do distrito sanitário está reforçado e está sendo distribuído para abastecer os Polos Base da região, com uma nova recarga prevista. 

“Não há falta de atendimento de saúde na região, uma vez que as equipes tem adaptado sua rotina de acordo com as especificidades e desafios de cada polo base ou aldeia. O DSEI-Y está em constante vigilância do cenário epidemiológico, garantindo a melhor assistência aos povos Yanomami e Ye’kwana por intermédio de ações de promoção, prevenção e intervenção na saúde da população indígena da região”, afirma o Ministério da Saúde.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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