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Zagallo, uma história de futebol (e política) do Brasil

Zagallo, uma história de futebol (e política) do Brasil

Em 1996, o Roda Viva – clássico programa de entrevistas da TV Cultura – recebeu um ídolo, em paletó cinzento e gravata multicolorida. Um pedaço de história ambulante que arrasta, até hoje, uma paixão nostálgica de gerações brazucas inteiras. Popular, bem apessoado. Não fosse a antipatia que salpicava as respostas dadas às perguntas de cada jornalista, poderia se tratar de um candidato ao poder público. Não fosse também, claro, o visível distanciamento sobre o tema. “Eu sou apolítico. De modo que eu olhei sempre o esporte, mas eu estive sempre dentro de um contexto difícil na parte política do Brasil, em que eu fui, talvez, condenado, por eu ser vitorioso nessas épocas, prejudicando algum partido, alguma coisa. Eu não entendo de política”. Era Mario Jorge Lobo Zagallo, o “Velho Lobo”, eleito 2º melhor técnico do futebol brasileiro, em votação promovida pelo Globo Esporte. Chegaria, no mínimo, ao segundo turno. Há de se entender algo sobre política, sim.

Afinal, o único tetracampeão do mundo no esporte mais popular da Terra sempre despertou emoções em quem acompanhou a seleção do país enquanto Zagallo esteve por perto  – seja em campo, seja na área técnica. Depois de vencer a Copa do Mundo como jogador em 1958 e 1963, o aposentado ponta-esquerda se tornaria o comandante técnico da seleção no tricampeonato de 1970, no México. Zagallo tinha em mãos uma chapa imbatível na disputa pelo título máximo: Pelé (Santos), Gérson (do São Paulo), Rivellino (do Corinthians), Tostão (Cruzeiro) e Jairzinho (Botafogo). Um quinteto com aprovação popular que pesquisa eleitoral nenhuma daria a um sujeito.

Pouco mais de três meses antes da Copa de 70, que colocaria uma medalha de ouro na farda já suja de sangue da ditadura militar vigente no país (1964-1985), uma troca na comissão técnica da seleção foi responsável por colocar o Velho Lobo na chefia. O convite partiu do então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange. Quem perdeu o lugar foi João Saldanha, que teria recebido um pedido do general Emílio Garrastazu Médici, presidente da época, para convocar o jogador Dário, do Atlético Mineiro. “Ele escala o ministério e eu, a seleção”, disse Saldanha na saída da amarelinha. “Dadá Maravilha”, de fato, foi à Copa de 70. 

Na mesma entrevista ao Roda Viva, Zagallo se esquivou de qualquer intenção política por trás de toda a troca. “Nunca existiu isso. Um presidente jamais desceria para falar sobre um atleta”. A intervenção militar se dava na lei, na imprensa e na arte. No futebol, segundo Zagallo, a repressão dos anos de chumbo passou longe. Talvez tenha sido apenas invenção comunista.

24 anos se passam. O Brasil volta a respirar democracia, a economia ganha estabilidade com o Plano Real – sem nenhum “milagre” – e o país volta à posição mais alta do futebol mundial com a Copa do Mundo de 1994, conquista nos Estados Unidos e narrada para a eternidade por Galvão Bueno. Era a quarta taça que chegava sem pecados ao sul do Equador. Zagallo estava lá, como coordenador técnico ao lado de outro grande nome a presidir a seleção, Carlos Alberto Parreira. 

O Velho Lobo permaneceria na amarelinha, com alternâncias de cargo. Em 1997, sem o belo paletó e as palavras polidas do Roda Viva do ano anterior, lança a frase que marcaria o imaginário brasileiro: “vocês vão ter que me engolir!”, logo após a conquista da Copa América. A ideia era afastar as pesadas críticas que caiam sobre ele e poderiam derrubá-lo da seleção. Ameaçado, sentiu que poderia ser deposto e foi incisivo. Mais uma vez, Zagallo atingia o coração do torcedor. O comandante ficaria apenas mais um ano, voltaria nos anos seguintes, mas não repetiria o sucesso.

O título de 1970 e o legado que permanece da conquista se confundem com a imagem de Zagallo. Em 2020, meio século da fatídica Copa, Zagallo foi convidado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para ser o garoto propaganda de uma camisa da seleção brasileira inspirada no modelo vestido pelo time de 70. O símbolo carregado pela camisa amarela é apropriado, ressignificado e entendido de diferentes formas, a depender do grupo e da época em que se está. Política e futebol, em um país como o Brasil, se misturam de forma direta e indireta, intencional ou não. A história de Mario Jorge Lobo Zagallo é exemplo disso. 

O “Velho Lobo”, aos 90 anos de existência, consegue ser ainda mais representativo do que a própria camisa da seleção brasileira. Como verdadeiro político, é capaz de carregar a memória esquecida de todo um povo. Carregar um tempo nas costas que lembra o sentimento e a luta que uniram o Brasil no passado.

Eduardo Veiga

Estudante de Jornalismo e redator freelancer. Já trabalhou em Rádio Banda B, Portal Banda B e publicou no Jornal Plural. Atualmente, é estagiário no Regra.

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