Me engula agora, se possível

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A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

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Voando baixo

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Eu sei voar baixo no radar, você já deve saber disso.

Quando eu quiser ser encontrada, você saberá. Mas calma, eu não irei te julgar por ter todas as suas certezas prontas para serem mastigadas pelas minhas vontades. Me vira, me toca, me afogue com a sua saliva. Eu posso te perdoar por achar que sabe me definir ou moldar, mas por enquanto, apenas continue voando baixo comigo. Me pede pra ficar de novo e eu fico. Me pede para me descobrir e eu me despedaçarei pouco a pouco, camada por camada, e talvez um dia você saiba o motivo dos alertas de perigo em meus olhos. Mas não espere estar nas capas de jornais, não ache que eu irei pegar na sua mão no almoço em família ou que eu irei te implorar atenção como um ser que necessita se sentir visto. Não. Ninguém precisa nos ouvir ou rotular ou sequer precisa entender. Ninguém.

Eu continuo fora do radar mesmo quando vou deixando uma peça ou outra cair na beirada da sua cama. Mesmo quando eu falo da minha mãe ou mudo meu foco porque eu odeio a memória do que já passou. Eu estou escondida mesmo quando você me ver com ares de quem sabe o que está fazendo- eu nunca sei. Tô voando baixo pra poder ter a paz de te ouvir sussurrar de novo ao meu ouvido: “louca”. Eu digo que não ligo amanhã, você respeita e eu trinco. Ninguém me viu passar, nem sabe onde minha cabeça repousou- mas você sentiu, não sentiu? No seu peito, um pouco abaixo do queixo, eu depositei uma parte minha tão frágil e tão escura que talvez você ainda veja uma marca se focar um pouco mais e perceber que apesar de invisível, eu sangro. Apesar disso, eu queria te pedir pra me envolver no seu braço como se eu já tivesse morado ali. Talvez você consiga arrancar uma parte de mim e guardar, para que eu tenha a certeza de que estarei no seu bolso por um tempo, e eu não estou dizendo que isso é ruim. Mesmo eu não sendo do tipo de pessoa que fica até o café da manhã ou que recusa- querendo aceitar- seus convites de mais um pouco de tempo, talvez haja um modo de te explicar que eu prefiro assumir essa postura do que correr o risco de não haver espaço para mim na sua agenda apertada e no seu medo de se envolver- feito eu.

Eu ainda sigo fora de rastreamento porque eu prefiro te ver sem a máscara dura da rotina, ainda consigo entrar na sua garagem sem ser vista, ainda posso lembrar da história do seu vizinho de porta que talvez nos odeie e lembrar do seu pijama, da sua íris. Estou checando calendários, eu to ouvindo outras teorias, alguma coisa precisa te tirar daqui e eu to fingindo que não quero colidir em você ou passar pela sua rota. Mas me diz, você tem pó de café ou eu levo? Você prefere weiss ou pilsen? Malbec ou pinot? Me prefere polida e requintada ou tudo o que eu sou de verdade, raiz e caos? Me diz, você está disposto a ser meu pouso? Só agora, só por hoje? Ou eu posso não decidir a hora de ir embora?

Você ainda não diz e nem ouve nada. Que pena, nem toda mensagem foi feita para se rastrear.

Focas do atlântico

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“Já ouviu dizer que o mundo está acabando?” Você me pergunta enquanto enrola uma mecha do meu cabelo. “Dizem que está acabando porque ninguém cuida de nada direito, mas a verdade é que a gente não cuida nem do que ama, imagina da foca listrada do atlântico? Que eu nem sei se existe mesmo.” Eu poderia tatuar esse diálogo e criar uma tese filosófica sobre ela que iria cruzar o mundo, porque “a gente não cuida nem do que ama”, repetiu-se na minha mente como um ciclo infinito de uma verdade tão sóbria e tão suave, como tudo o que aconteceu naquele dia tão cinza.

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Por favor, não mate meu São João

 São João Batista de Boa Viagem tinha só vinte e quatro anos de idade quando recebeu das mãos de finado Frei Manoel da Costa o Candeeiro do Santo Fogo Encantado. Lhe disse Frei Manoel que os milagre do candeeiro levariam alegria pro povo do sertão e essa seria a missão de São João. Onde chegasse deveria acender uma fogueira com o fogo do candeeiro e fariam festa. Ainda lhe alertou que João tomasse muito cuidado, pois uma vez que se apagasse o candeeiro o santo fogo deixaria de existir e as pessoas se esqueceriam de seus milagres. Continue reading Por favor, não mate meu São João

Eu te vejo inteiro

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Você me ama a ponto de conseguir segurar meu soco seco na ponta de facas que me ferem. Você me estanca, cura e sangra, pra poder me lembrar o custo e o barulho mudo que é te desejar num dia frio de meio de ano, querendo morar no seu pulmão esquerdo que é menor, pra eu não ter mais espaços para outra coisa que não seja você me respirando. Amar tanto. Amar teu zelo e teu sofrimento e depois querer orbitar em cada uma das suas animosidades pra dar novidades na minha vida. Eu sou a história que você poderá repetir por anos a fio e sempre haverá algo novo para incluir, para te incluir. Meus dias de conquista, você. Quando o chão tocou meu rosto, você. Quando eu sou algo maior do que eu achei que seria, nós.

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Só mais dez minutos

Não existe crise existencial mais conhecida que a crise dos dez minutos. Aquela que se alimenta das suas energias no tempo preenchido pela soneca entre o primeiro alarme de manhã e o segundo, terceiro, quarto. Você desperta mais cansado que quando foi deitar, aparentemente. Seu nome, seu trabalho, sua vida… tudo parece ter menos significado que tatuagem brega de adolescente, e a única coisa que a sua consciência espera de você é uma decisão muito simples: Levantar ou dormir mais dez minutos?! Quem nunca acordou e ficou sentado na beira da cama tentando recuperar a memória que atire a primeira pedra.

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